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Kintsugi: a arte de remendar as cicatrizes da vida.

  • Foto do escritor: laurawerneckmoura
    laurawerneckmoura
  • 17 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

Cada segundo era importante enquanto o objeto partia em direção ao chão, sem que eu não pudesse fazer nada. Mesmo assim minha atenção acompanhava cada fragmento de segundo , cada centímetro, como se o peso da angústia fosse capaz, talvez por algum milagre, de desacelerar ou parar o tempo. Caiu. O chão fez extremamente bem o seu trabalho. O barulho do estilhaçar do objeto foi grande. Maior do que o imaginado. Partiu-se sabe-se lá em quantos pedaços, grandes, pequenos, farelos, tudo o que se poderia imaginar. A vida é assim. Ela não liga para o que vai e o que fica. Somos nós humanos que damos demasiada importância e preocupação a essas coisas.


Tempo. Tempo é a questão chave. Khronos é o rei dos reis, rei do tempo. Em suas costas está o importante fardo de carregar aquilo que amamos. O que vai e o que fica nos mostra a única permanência: a impermanência. E diante disso, principalmente a fragilidade a qual nos chega. Aquilo que amamos não é imortal, tampouco à prova do tempo. Um sopro a mais nas asas de uma borboleta no outro canto do mundo e tudo desaba, do dia para a noite.


Das coisas que quebram nós também fazemos parte. E é aí que parece que dói mais. Onde fomos parar? Onde estamos? Onde estão nossas partes perdidas? Quando foi que deixamos de ser para ser algo que não sabemos o que é? A morte sempre vem de fora diz Spinoza. Talvez ele carregue uma verdade no que diz. Mas não podemos nos deitar em posição fetal, abraçar a dor e caluniar o mundo.

A dor é letal quando se mantem no primeiro plano. Quando deixamos de ser conduzidos por ela abre-se um buraco negro de ressentimento no peito e atrai, inevitavelmente, para o seu centro e de onde nada sai. Paralisamos. Estáticos. Pedras. Estátuas.


Um coração quebrado é como um osso quebrado. Um sonho despedaçado é como um espelho partido no chão que dá sete anos de azar. Sentamos em qualquer lugar para, desesperados, procurarmos uma melhora e saída súbita clamando para o nosso espírito reagir. Ação!. Mas nada. É inútil, é impossível. Não somos capazes, nessas horas não possuímos liberdade transcendente para agir além das possibilidades que nos apresentam. O tempo leva, a dor constrange. A linha é tênue e segue em só uma direção. Alongando-se até perdermos de vista. Mas se a morte vem de fora como diz Spinoza, então a cura vem dos encontros. Será?. Como se fosse um band-aid quando acoberta a ferida. “Calma vai ficar tudo bem, nem tudo está perdido.” Eis a nossa única certeza: embora cada desencontro seja vivenciado como uma pequena morte, há vida nos encontros.


Existe uma técnica japonesa que traduz a sabedoria do que é frágil e que precisa de cuidado. Kintsugi, a arte dos encontros. A palavra significa : emenda com Ouro. A técnica é feita para reparar pequenas porcelanas chinesas com ouro ou prata. Geralmente em lares domésticos aconteciam essas remendas. Ou seja, era feito de destroços quebrados algo esteticamente belo. Kintsugi nos traz uma lição, lição essa que significa que o imperfeito pode ser melhor que o perfeito, que o posterior pode superar o anterior mesmo que pareça impossível.


Kintsugi nos traz uma lição, lição essa que significa que o imperfeito pode ser melhor que o perfeito, que o posterior pode superar o anterior mesmo que pareça impossível.

O ato de colar algum objeto partido nos mostra que talvez isso seja melhor do objetos feitos em série, todos iguais, padronizados em um só estilo. Não há espaço para o diferente, o inadequado. A arte Kintsugi une por dentro o que foi separado por fora. Quem disse que aquilo que quebra está perdido? Não somos afinal todos nós máquinas em maior ou menor medidas passíveis de rachaduras, panes, brochuras, remendos? A vida é Kintsugi. A vida é a arte de colar e remendar com aquilo que encontramos de mais valioso. Kintsugi é unir com valor.


Sobre os encontros pela vida. O chão e a gravidade não perdoam. A louça delicada que vai de encontro ao chão é totalmente incapaz de escapar do seu cruel destino . Mau encontro. Ao contrário. Kintsugi é a arte dos bons encontros. É uma forma de ver beleza nas cicatrizes da vida. Aqui a gente junta os fragmentos partidos com o que Khronos tanto queria tirar de nós. Juntamos a superficialidade das relações dos tempos modernos, tentamos forçar sua mastigação mas logo cuspimos pra fora de nós. É necessário. A gente enfrenta. A gente luta. E nessa batalha onde a vitória é a única forma de respiro tornamos a vida em particular com mais singularidade. O ouro ou a prata nessa técnica é usada como remendo, remendo esse que valoriza o partido. Daí vem a *transvaloração, o rompimento dos valores antigos. Aquele objeto que foi repudiado por todos é lapidado e trabalhado de forma que se torne valioso, distinto permeado de cuidado, amor e persistência. A gente sempre espera que as coisas durem. O para sempre ainda é algo que nos aquece a alma. E por acaso estamos errados nisso? Almejar que algo bom seja eterno é pecado? Kintsugi narra a história de artefatos que viveram o suficiente para enfrentar seu destino e que no caminho sofreram suas aflições e tempestades do tempo e do descuido. As mãos que lapidaram tais objetos trazem a esperança de que com cuidado e amor o remendo torne o renascimento em algo possível. A rachadura sofrida é coberta por ouro. O sofrimento é coberto com prosperidade; A desilusão com aprendizado e perdão. O desgosto com a generosidade; a agonia com a *transvaloração, ou seja a destruição é necessária para abrir espaço lentamente para que haja espaço para outros valores. Valores esses mais consistentes, poéticos e mais reais. É necessário virar-se do avesso. Ir do caos absoluto para o renascimento absoluto. Dá-se espaço para a ressurreição do novo remendado. O objeto outrora quebrado, totalmente espatifado triunfa mais valioso, e assim renascendo na sua forma mais grandiosa, ele , inevitavelmente adquire uma nova grandeza de devir a ser. Eis a beleza da arte Kintsugi. As mãos sorriem ao tocar na peça agora valiosa. Nos alegramos com a arte da renovação a partir do caos destruidor e obscuro, nos alegramos com os encontros dourados que tecem nosso fio do destino e que em menor ou maior medida tornam a nossa vida possível de viver.






*Transvaloração: é o rompimento com o ser humano ideal travestido dos valores morais e tradicionais para que este se torne o ser humano real, o que não sofre as consequências de não aderir aos valores impostos, ou seja, não ter medo de ser tachado como imoral visto que o conceito de bem e do mal carrega suas inúmeras variações.

1 comentário


werneckkatia3
17 de mai. de 2020

Wow!! Amazing! Congratulations it's a wonderful text

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"Uma vida não questionada não merece ser vivida."  - Platão

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