Disciplina do desejo
- laurawerneckmoura

- 13 de fev. de 2022
- 6 min de leitura

A melhor forma de falar do desejo é trazer a filosofia do estoicismo. Os estóicos distinguiam apenas duas áreas da alma: O julgamento que é a capacidade de receber e avaliar sensações externas. Vontade que é a capacidade de agir através de funções motoras.
A vontade se desdobra em ação mais ativa ou um desejo passivo. Se é ação então é ativa se é desejo então é impotência do corpo, é carnal, é irracional e portanto apenas e somente desejo. E isso leva a seguinte conclusão: ou a ação vem de nós ou somos passionais, movidos pela paixão.
Mas o estoicismo de Seneca, Marco Aurélio e Epíteto desdobram a Vontade em duas áreas distintas, ou seja, o desejo e ação não são mais opostos ou reversos um do outro.
O desejo agora será consentido como uma faculdade da alma, o que nos leva a sermos atraídos a algo ou avessos a algo.Desejo é querer. É inclinar-se ou afastar-se das coisas em si. Definido o questionamento passa a ser : este desejo estaria de acordo com a (minha) natureza ou a contradiz?
A disciplina do Desejo e Ação ou Vontade permeiam entre 3 faculdades da alma , como já havia explicado em cima, o Julgamento, responsável pela verdade e mentira, o Desejo responsável pelas inclinações e aversões e o Agir responsável pela conveniência e inconveniência das ações.
E daí chegamos a um recorte Estóico:
1_ O que depende de nós: nossas ações, pensamentos etc
2_O que não depende de nós: o resultado de nossas ações e os acontecimentos do mundo.
Partindo de uma análise do nosso interior, nossos pensamentos são coisas que mais estão no nosso poder. E os analisando e os ponderando, podemos agir. E aí que está o corte Estóico, a partir do momento que transformamos o pensamento em ação o resultado não está mais sob o nosso poder, a partir daí quem passa a ter o poder é o externo. E é daí que o desespero recai sobre nós. O ser humano tem o desejo de ter tudo sob controle dele, somos mestres do ego. Queremos tudo do nosso jeito mas a natureza, sábia nos ensina de um jeito tão sútil que por mais que façamos força para mudar algo que não depende de nós nunca sairemos bem sucedidos ou não teremos aquilo exatamente como queremos.
Eu trago um exemplo para ilustrar isso. Imaginemos um@ arqueir@, durante 28 anos da sua vida el@ treinou arco e flecha com @s melhores professor@s do mundo. Todos os dias da sua vida , durante 28 anos, foi estudo atrás de estudo. No momento do torneio ou guerra, el@ se posiciona com sua melhor armadura, com seu melhor arco e flecha, direciona a seta para o alvo e lança a seta. A partir do momento que a seta foi lançada não existe mais controle da seta. A partir daí é a natureza que comanda, o destino que toma as rédeas. Pode passar um pássaro em frente a seta, pode vir um vento tão forte que redirecione a seta para outro alvo.
Concluindo, os acontecimentos externos do mundo não dependem de nós. Então, defendem os estóicos, não há nada que possamos fazer, apenas aceitar. Marco Aurélio, um grande estóico ilustra isso tudo em uma frase de sabedoria impar. ‘Desejar que nasçam figos no inverno é loucura!, mas não desejamos coisas desta maneira constantemente? é constante desejar o que não pode ser, o que é impossível. E igualmente constante não desejar o que precisa ser, que é necessário. Tudo que está de acordo com você está de acordo comigo, ó Mundo! Nada que acontece no momento certo para você chega cedo demais ou tarde demais para mim. Tudo que as estações produzem, ó Natureza, são frutos para mim. É de você que tudo vem; tudo está em você; e todas as coisas se movem em você”. – Marco Aurélio, IV, 23
Ter ímpeto para ir atrás do que queremos é necessário, é assim que a roda da vida gira .Ir atrás dos nossos sonhos, de amores, da nossa vontade e desejos mas jamais nos culpar caso isso não aconteça como queremos. Tornar o movimento do mundo o nosso movimento, isto é, para os estóicos, a sanidade. O tempo do universo é o correto, seja lá quem ou o que rege isso tudo, a Natureza comanda e esse tempo também deve ser respeitado por nós por mais difícil que isso pareça no momento. Aprender a desejar dentro da natureza, na natureza e com ela e não desejar que ela seja diferente do que ela é, é esse o objetivo de uma vida boa.
O marinheiro não estranha que o vento às vezes sopre a favor e às vezes em sentido contrário. Uma médica não estranha que uma pessoa saudável tenha febre e o o convalescente comece a ter disposição de uma hora para outra. Um jardineiro não estranha caso a tal figueira produza figos suculentos na primavera e que no inverno todos os figos sequem. A natureza tem seu tempo, nos cabe encontrar o tempo da natureza.
Isso parece estranho no primeiro momento, mas na filosofia do estoicismo faz muito sentido. Se nossos desejos e vontades são inconstantes o melhor a ser fazer é dirigi-los para a natureza. Deixar a disciplina do desejo fazer os movimentos do desejo se moverem junto com o movimento do mundo. E nós podemos fazer isso. Mas como?
Reavaliando-os de uma maneira racional, dizem os estóicos.
Devemos encontrar uma forma de desejar de forma parcial e encontrar a maneira universal com que o universo deseja. Por isso a física, o material, entender o nosso mundo físico está muito ligado à disciplina do desejo, da vontade, isso nos ajuda nessa reavaliação. Ou seja, compreender mais sobre a natureza transforma o valor que damos às coisas. Pensando nisso, a gente pode se questionar: como pedir o que sabemos que o mundo necessariamente não nos dará? Ou como negar aquilo que sabemos que o mundo necessariamente nos dará?
Os estóicos ensinam a “Aceitar a ordenação da natureza”e fazer dela nosso próprio desejo. Grande parte dos nossos sofrimentos são ampliados pq desejamos coisas que nunca acontecerão ou não da forma exata que desejamos. Por que muita das vezes, se não TODAS são coisas que estão absolutamente fora do nosso controle saber disso com a certeza da Física nos acalma e nos torna mais complacentes. O “não era pra ser” nunca encaixou tão bem quanto agora.
E essa física estóica faz questão de ensinar que muitas coisas não estão no nosso poder. E tá tudo bem. Porque tudo está ordenado exatamente como deveria estar. Tudo faz parte de um “plano maior”. Constatar isso muda a nossa maneira de enxergar a vida, ver as coisas e o valor de cada uma. O conhecimento muda a nossa maneira de desejar.
É de Epíteto o pensamento “Somos como um cão amarrado a uma carroça” O cão somos nós, a corda é o determinismo que nos amarra aos acontecimentos necessários ao mundo. Se a carroça desce uma ladeira, nós descemos também, se ele vira pra direita, nós viramos também. Não dá pra parar o mundo, então por quê desejar isso? Muito melhor é se questionar: como fluir com ele?
A disciplina do desejo nos ensina a não ficar preso no acontecido nem no não acontecido. Essa disciplina nos ensina a fluir melhor com o rio de mudanças que é o universo. O Tempo dos figos acabaram? Beleza, que venha o inverno então! O vento sopra ao contrário? Ok, viremos a vela. Estamos doentes? Farei de tudo que estiver ao meu alcance para que eu fique novamente saudável. Não ficar preso ao passado, aprender a fluir com a maré dos acontecimentos que querem se efetuar agora. E sabendo que elas podem estar a nosso favor ou não.
Mais uma vez os estóicos, que são atletas da virtude, guerreiros da sabedoria e defensores do acontecimento nos ensinam que o mundo é maior que a nossa vontade e nos mostram uma melhor maneira de lidar com isso. Uma filosofia que liga o amor a coragem dos acontecimentos, como eles são e como necessariamente eles deveriam ser.
Amor fati é ter amor ao destino.
“Lembra-te de que fica tão mal estranhar que a figueira dê figos, como que o mundo dê os frutos de que é produtor. Igualmente ao médico e ao piloto fica mal estranharem que alguém tenha febre ou que um vento sopre contrário.”
-Marco Aurélio, Meditações, Livro VIII, §15




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