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Vontade pessimista.

  • Foto do escritor: laurawerneckmoura
    laurawerneckmoura
  • 12 de out. de 2020
  • 4 min de leitura

Era uma tarde de um domingo qualquer e ali o indivíduo tentava encontrar um melhor caminho. Talvez decifrar um mistério, uma incoerência que pulsava no seu interior e não sabia qual a razão. Em um passo trôpego, o indivíduo saltou para dentro de si, o corpo era o melhor caminho para sair da caverna, pensou. Mas dentro da caverna se abria outra caverna, desta vez mais assustadora. Quando atingiu o fundo do abismo, o fitou estarrecida, ora é necessário um pouco de cautela mesmo sabendo que se está no meio do furacão mesmo quando já não há nada que, possivelmente, adiantasse fazer . Nietzsche nos avisa “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

E ali ficou. Parado. Estática observando cada detalhe e tentando entender quando que ela se permitiu estar dentro daquele caos.

Ao olhar pra cima, forçando a vista para ter qualquer vislumbre interessante da saída mais próxima encontrou o enigma da coisa em si, encontrou a vontade em si mesma. Olhava pra cima e via fenômenos distantes, mirabolantes, cheios de movimentos inúteis e altamente desnecessários. Era inútil aquela vontade. Ela havia chegado ao limite. Qual a essência do mundo: a vontade. Mas qual seria a minha? O que há além da caixa de Pandora? O que se esconde por trás de todas as perguntas que ela fazia para si? O que o outro lado escondia? Não havia clareza alguma, não havia luz da razão, não havia uma escolha melhor, não havia salvação! Seria apenas a eterna vontade ali, estagnada feito água de piscina abandonada.


O mais estranho e agoniante de entender é que esta vontade não quer nada de objetivo, não tem rumo, não busca uma unidade ou um fim. A vontade transcendeu uma imanência. E estranhamente essa vontade perdurava ainda como se fosse uma segunda pele que decidiu grudar na primeira . A vontade, o desejo de decidir algo ou trilhar um outro caminho é o plano de imanência. Só por ela que se consegue alguma resposta. É nela que tudo passa, é nela que todas as forças circulam, é a roda giratória da vida , a serpente que consome sua própria cauda. Ouroboros.

Sim, ela se via como o mito da caverna ao contrário. Olhava o abismo e ele olhava de volta De todos os fenômenos que ocorrera a ela, esse era o mais viciante e o mais triste. Percebera que existia um afeto triste ali, e nada de potência parecia vir a surgir. Era como se ele estivesse em efeito vegetal, dando-lhe outro rumo, outra racionalidade. E ele sabia que essas mesmas forças vegetais seriam apropriadas pelas forças animalescas, que consomem, dilaceram, digerem, absorvem dando-lhe novamente outro sentido de ser. Ela parecia não acreditar que depois de tanta luta, guerra e um hiato de “paz” a luta final chegaria. E chegou. Ela tinha que chegar. O que se acha no meio dessa guerra travada entre seres orgânico e inorgânicos que tendem a viver dentro de nós? Esta angústia que ainda teima em permanecer e travestir potência de ser e reluzir. Essa angústia é vivida exatamente da mesma maneira internamente, nos pensamentos, volições, desejos e fantasias. E tudo, pensava ela, não passava de uma fantasia nostálgica.

Ora, onde está a razão? - Em uma pausa cômica eu rio- a razão é apenas um ponto ínfimo, um barquinho frágil procurando não afundar em um mar de forças caóticas e perturbadoras. Era normal se sentir distante da razão otimista. Ela sabia que os fenômenos podiam ser organizados pelo intelecto , mas a Vontade lhe fizera de serva. O que havia abaixo das coisas e principalmente da vontade não era nada benevolente e organizada era uma força atroz, cega, obsessiva e insaciável. E havia sentido nisso?


O que sustentava ela? Era como se fosse um iceberg, a ponta dele. Eram as forças da consciência que se eleva acima do mar, e o que está lá embaixo não vinha à superfície. O que sustentava o contrafluxo da vontade será a sustentação de uma consciência, e essa consciência é um acúmulo de forças primitivas e disformes organizadas pela mais brutal forma de vida. A vontade é o mundo irracional, animalesco se manifestando através de um afeto obsessivo.


Mas qual o lugar de representação da vontade no mundo? O mundo na sua representação mais clichê é um teatro de marionetes , “o mundo é um palco” já diria Shakespeare , as marionetes são conduzidas por fios invisíveis. A vontade em si é a necessidade cega desta peça não ter destino, não saber ou ter um final. O mundo como representação é a consciência calma e racional que quer prever sua trajetória minuciosamente. A vontade como representação é um fundamento sem fundamento, uma racionalidade sem racionalidade. É feito um polvo gigante cheio de tentáculos que se movem em completa conexão com a correnteza do mar aberto. Esses tentáculos se manifestam em todas as suas pluralidades e para todos os lados ao mesmo tempo.


Ironicamente a vontade não almeja absolutamente nada. Ela não é uma flecha que segue uma direção só. A vontade simplesmente quer. E nós, indivíduos na sua natureza de eternos “desejantes sociais” do querer jamais obteremos felicidade e paz. Afinal todo querer, toda a vontade nasce de alguma necessidade, de algum sofrimento de alguma ausência. A satisfação, por momentos, coloca fim nessa vontade. E assim, depois desse momento de satisfação nascem 10 novos desejos. Se você parar e pensar a vida em si seria um eterno sofrimento. O mundo pessimista é o mundo raso cheio de afetos tristes e impotentes. É o mundo que cria sujeitos para serem máquinas desejantes de seus prazeres carnais se distanciando de um mundo platônico onde o bom, o belo, o justo e o verdadeiro existem. Você chega à uma fiel conclusão: se este mundo foi realmente obra de algum ser divino, esse ser carrega crueldade na sua totalidade. Mas aí que está! se mergulharmos nas nossas cavernas e enfrentarmos todas as tormentas, vislumbrarmos a escuridão podemos encontrar um plano de fuga chamada imanência. Na imanência nada se perde, tudo se transforma. Nada escapa; tudo permanece, nada é eterno tudo está em fluxo. Suspeito que por mais difícil que seja alcançar a imanência, é a única forma que temos de viver esta vida plenamente. É por ela que se podem encontrar caminhos internos, suas dobras e perder-se em fins e começos que só serão eternos enquanto existirem no momento que você os vive plenamente sem esperar nada.

É no demorar contemplativo que se tem acesso ao longo fôlego e a um breve suspiro.

 
 
 

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"Uma vida não questionada não merece ser vivida."  - Platão

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